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'Coaching' ultrapassa limite da carreira e chega à intimidade

Mercado
23/04/2013

Depois perder 10 kg em quatro meses, Luiz Antonio de Castro Mattos, 44, decidiu que o método que ele usou para emagrecer poderia ser transmitido a outras pessoas em sessões de "coaching" (um treinamento que consiste em uma consultoria, geralmente personalizada).

Mattos, que já era "coach" executivo (atendia indivíduos que queriam se tornar melhores profissionais), passou a oferecer sessões para quem quisesse perder peso.

Inicialmente, esse tipo de consultoria tinha como alvo executivos que assumiam novos cargos nas empresas. O método mais tradicional tem cinco passos: explicação do processo, avaliações e diagnósticos do cliente, planejamento dos encontros, sessões de conversas e questionamentos e, finalmente, um balanço para saber se o objetivo foi alcançado.

A meta deve ser algo específico, como melhorar o fluxo de caixa da companhia ou aumentar os lucros.

Entretanto, a prática vem sendo usada para objetivos cada vez mais variados: emagrecimento, gravidez, qualidade de vida, recuperação clínica, religiosidade etc.

Agora, Mattos, que é evangélico presbiteriano, está estruturando um programa de "coaching" para pessoas que tenham como objetivo "conquistar o paraíso".

Ele afirma que o método para ajudar os clientes em campos tão díspares como o do emagrecimento e o da vida pós-morte é o mesmo.

"Precisamos ajudar um cliente a sair de um ponto e chegar a outro. O processo ficou mais famoso no cenário de negócios, mas vale para todas as esferas da vida."

O presidente da Sociedade Brasileira de Coaching, Villela da Matta, concorda com ele. "É como o método para fazer um bolo: tem o passo a passo da receita e o resultado final vai ser um bolo. Mas pode ser de chocolate ou de cenoura."Analogamente, compara, o resultado do processo de aconselhamento pode ser quitar dívidas, passar em um concurso público ou buscar uma nova carreira.

Ou, ainda, tornar-se líder de uma tribo indígena. Marinaldo Guedes, 39, de Manaus, foi incumbido de ajudar um cliente que tem esse objetivo.

Ele entra em uma canoa e atravessa um trecho de um afluente do rio Negro. O "coachee" (como são chamados os clientes desses treinadores) tem 27 anos, e deve se tornar cacique da tribo tururukari-uka.

Guedes conta que o cliente se chama Francisco Uruma e é filho da atual cacique. Foram
feitas seis sessões, de um total programado de 12.

"Na semana passada, ele foi para Brasília para participar de um encontro e, antes de embarcar, fizemos um 'road map' [mapa de rota; expressão que os profissionais usam para se referir a planos] de como seria a fala dele", diz.

GUIA ESPIRITUAL

Um processo de "coaching" que aborda outros aspectos da vida de um profissional, como o equilíbrio com a família e a espiritualidade, é característica do trabalho de Renato Hirata. Ele, no entanto, só trata desses assuntos porque eles interferem na produtividade dos clientes.

Um deles, Gustavo Walch, 39, diretor de vendas de uma montadora, afirma que esses aspectos são importantes porque "na vida, tudo é uma balança: a parte financeira, física, mental, amorosa etc."

 A ideia é que Walch será um profissional mais capacitado caso essas outras questões estejam equilibradas.

Paola Pedron, 49, é "coach com mestrado em enologia". Ela explica que o fio condutor das sessões dela é o vinho.

Durante as sessões (tanto individuais como em grupo), ela faz analogias da vida pessoal e profissional com a "análise dessa bebida sana que pode nos ajudar".

"Um bom vinhateiro [produtor de vinho] tem de saber lidar com intempéries. Se não tiver a experiência de mexer com a terra, com o clima, com a microfauna e se não tiver a humildade de aprender com esses elementos, não faz um bom vinho."

Ela compara isso às situações de pressão na vida profissional. Assim como o produtor precisa ter consciência das adversidades, as pessoas precisam saber que "dependem das outras".

MUTANTES

Não apenas os propósitos são os mais variados, como as técnicas também mudaram bastante.

Para ensinar novos hábitos aos clientes, há treinadores que usam psicanálise e PNL (programação neurolinguística).

Aguilar Pinheiro, do Instituto Brasileiro de Gestão Avançada, explica que se trata de uma técnica para associar palavras a reações -as sessões consistem em uma série de exercícios práticos.

Para exemplificar, Pinheiro relata que teve um cliente tímido, a quem recomendava uma postura ereta, de prontidão.

"Uso PNL com 'coaching' porque acelera o processo", diz Liamar Fernandes. Um dos atendidos por ela, Rafael Gomes de Aguiar, 31, gerente de uma empresa de logística, exemplifica algo que aprendeu no treinamento. Ao explicar uma tarefa a um de seus funcionários, ele pede para que o profissional explique o que acabou de ouvir, para verificar se o recado foi passado corretamente.

"Isso melhora a relação com o colaborador e eu gasto menos energia, porque os resultados do trabalho voltam com mais acerto", afirma.

Essas formas híbridas de "coaching", no entanto, enfrentam resistências. Matta, da Sociedade Brasileira de Coaching, afirma que esses processos com modificações "são um risco" para a profissão. "As pessoas desenterram técnicas que há dois anos tinham outro nome e agora chamam de 'coach'." Ele afirma que essa mescla de diferentes ideias pode confundir.

SONHOS

O psicólogo Ben Franz, 64, adota a prática do "coaching psicanalítico".

A ideia por trás da técnica, diz ele, é que "se os líderes tiverem sanidade mental, a empresa será melhor". Para achar os problemas dos chefes, é preciso identificá-los no inconsciente deles, diz. O método é o mesmo da psicanálise: conversas, inclusive sobre os sonhos do cliente.

"Coach" de qualidade de vida, Ivani Manzzo, 51, recomenda terapia, mas não mistura as duas coisas.

"Não resolvemos problemas tão profundos como na psicanálise. Trata-se de uma busca por uma solução rápida", afirma.

No entanto, ela diz que o processo se propõe a resolver questões parecidas com as que são geralmente tratadas na psicanálise.

"Eu e o 'coachee' buscamos uma melhora do indivíduo na relação com a família, no trabalho, no lazer, no amor, na maneira de lidar com dinheiro etc", diz.

A "coach" conta que algumas das clientes que a procuram afirmam não ter mais vontade de fazer sexo com os maridos.

"Elas têm medo de dizer isso a eles. Eu pergunto qual seria a reação dos parceiros, e elas não sabem dizer, porque nunca pensaram nisso."

O problema mais comum entre os clientes dela são distúrbios alimentares.

O aluno de educação física Iago Pimentel, 20, a procurou porque só gostava de alimentos industrializados e pouco saudáveis.

Ele é atendido desde o fim do ano passado e afirma ter ampliado o cardápio com peixe, macarrão e sucos.

"Ainda não consigo comer carne", diz. Nas sessões, a treinadora faz perguntas que, diz ele, são até simples, mas sobre as quais não havia pensado. Por exemplo: por que ele só comia batata frita, e não cozida ou em forma de purê?

O estudante já havia procurado uma psicóloga para tentar mudar seus hábitos, "mas ela
queria falar sobre tudo", e uma nutricionista, que só dizia o que ele deveria fazer.

RESTRIÇÕES

Como a profissão é nova e não é regulamentada como ocupação, podem "surgir oportunistas", afirma Matta.

Ana Cristina Limongi-França, professora titular da área de gestão de pessoas e qualidade de vida da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, diz que é preciso tomar cuidado ao aderir a um processo desse tipo.

"Como há essa natureza par a par, de pessoa para pessoa, e não tem regulamentação, existe mesmo uma vulnerabilidade do contratante. Há espaço para uma ação superficial, alienante e enganadora. Não se sabe bem aonde vai chegar e existe uma manipulação intensa."

Matta diz que há algumas "bandeiras vermelhas" que indicam que o "coach" pode ser um picareta. Uma delas é o profissional começar a dizer o que o cliente deve fazer ou dar sugestões.

"Um bom profissional nunca irá dar receitas", diz Iussef Zaiden, 56, consultor e "coach" que atua há 30 anos no mercado. Ele cita outra maneira de investigar o profissional, que é saber quais cursos ele fez sobre o método.

"Tem muita gente que lê um livro e acha que é 'coach'", afirma Zaiden.

Outra dica: o "treinador" deve saber explicar, de uma maneira simples e eficaz, como será o processo inteiro, com início, meio e fim.  
 

 

*Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 20/04/2013
   

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