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A saga dos profissionais viciados em trabalho

Mercado
11/11/2013

Todos os dias, por volta das 15h, Michele costumava se sentir física e mentalmente exaurida. Em vez de fazer uma pausa para se recuperar, esta empresária texana de 50 anos preferiu se envolver em um novo projeto de trabalho. "Eu estava viciada em adrenalina e ficava ligada o tempo todo", diz. Mas isso teve um preço. "Eu me sentia deprimida e estava perto de um colapso."

Assim, há seis anos ela participou de sua primeira reunião nos Workaholics Anônimos (WA), um programa de 12 passos fundado em 1983 e que segue o modelo de reuniões dos Alcoólicos Anônimos e dos Narcóticos Anônimos. Neste caso, porém, em vez de lutarem para escapar do vício das bebidas e das drogas, os participantes querem parar de trabalhar de maneira compulsiva.

O grupo ajudou Michele (nome fictício) a mudar o modo como ela se comportava no escritório. Ela passou a trabalhar menos, mas de maneira mais inteligente, sentindo-se, portanto, com mais energia. "As múltiplas tarefas e a tecnologia dificultam a concentração. Passei a manter o foco em uma coisa de cada vez e, assim, comecei a me sair melhor". Ela também transformou suas atitudes. "As pessoas usam o trabalho para evitar a intimidade emocional. Eu não me achava útil se não fosse produtiva."

Os grupos de WA ajudaram Michele a detectar a origem do problema em sua infância. "Meus pais são pessoas adoráveis, mas não eram muito atenciosos. Lembro-me que só recebia atenção deles quando ia bem na escola", diz. O estereótipo do excesso de trabalho, diz Michele, é o de um homem de negócios de terno e estressado. Mas ela acredita que esse não é o único modelo, pois anteriormente foi viciada em trabalho voluntário. Até mesmo pais e mães que ficam em casa podem sofrer desse problema quando precisam estar sempre ocupados e não se sentem confortáveis quando estão relaxados. "O vício em trabalho atinge muito mais do que apenas executivos esgotados. Da mesma forma, ser alcoólatra não significa ter que dormir debaixo de viadutos."

Apesar do diagnóstico de workaholic de Michele, não existe uma definição clínica para o problema. Além disso, o Workaholics Anônimos nunca teve a mesma força dos Alcoólicos Anônimos. O termo foi criado em 1968 por Wayne Oates, um psicólogo e educador religioso americano, em um ensaio em que ele confessa que seu próprio vício em trabalho (ele escreveu 57 livros) era parecido com o abuso de álcool. A noção de ser viciado em trabalho também beira o ridículo. "As pessoas riem quando você diz que é workaholic", lamenta Michele.

Mesmo assim, Michael Sinclair, psicólogo e consultor baseado na City de Londres, afirma que o componente compulsivo do excesso de trabalho e suas consequências danosas levaram mais psicólogos a mudar seus pontos de vista. No ano passado, por exemplo, pesquisadores da Noruega e do Reino Unido criaram a Bergen Work Addiction Scale (Escala Bergen do Vício em Trabalho), baseada em traços importantes de compulsão.

Bryan Robinson, terapeuta e autor do livro "Chained to the Desk", há muito defende o conceito de vício em trabalho. Descrevendo-se como um "workaholic recuperado", ele diz que, assim como um alcoólatra, costumava esconder seus excessos no trabalho. Robinson se lembra, por exemplo, de um feriado em que fingiu que iria tirar uma soneca e, enquanto sua família saiu para dar uma caminhada, ele se pôs a trabalhar. Ele conta o caso de uma mulher que costumava molhar suas roupas de ginástica para que as pudesse usar como álibi para as longas horas que passava dentro da empresa.

O excesso de trabalho não é prejudicial apenas para a pessoa que sofre com esse problema, mas coloca também um fardo sobre o cônjuge e os filhos. Alguns estudos mostram que os filhos de workaholics apresentam taxas maiores de depressão e ansiedade que as de filhos de alcoólatras.

Mesmo entre os psicólogos que rejeitam a existência desse vício, o excesso de trabalho é visto como um sinal de problemas emocionais. De acordo com Sinclair, o trabalho duro pode ser associado ao perfeccionismo e ao "comportamento Tipo A" (hipersensível e competitivo). Sustentando esses problemas, diz ele, estão "sentimentos de rejeição".

Todavia, Sinclair afirma que nem todo mundo que trabalha muito tem um problema. "Há uma diferença entre pessoas que se dedicam às suas carreiras e gostam disso, e o trabalho compulsivo que é usado para bloquear sentimentos". Além disso, ele ressalta que tudo se resume ao excesso e que todos nós temos algumas características dos workaholics. "O trabalho é importante para nossa identidade. É importante financeiramente, mas também psicologicamente. Ele pode ser saudável, pois nos proporciona uma função e uma rotina, mas em excesso pode ser um problema", diz.

Mark Griffiths, professor de teoria dos jogos da Nottingham Trent University, acredita que não há problemas em trabalhar de 12 a 16 horas por dia durante períodos de tempo curtos. Ele acrescenta, porém, que cada um reage de maneira diferente. Duas pessoas que trabalham 14 horas por dia durante um mês podem exibir comportamentos parecidos, mas "são muito diferentes em termos de motivação psicológica e a experiência do trabalho em suas vidas". Para uma delas, trabalhar duro pode ser "totalmente positivo", resultando, por exemplo, em promoção, enquanto que para a outra trata-se de algo "totalmente negativo" porque é uma maneira de bloquear tudo o mais que existe em volta dela.

Yehuda Baruch, professor da Neoma Business School, da França, acredita que o excesso de trabalho não deveria ser automaticamente classificado como um vício, e sim como uma característica que pode trazer resultados positivos para os indivíduos, os negócios e a sociedade. "Temos sorte pelo fato de os Beatles terem sido workaholics", diz.

No ano passado, Wilmar Schaufeli, professor de psicologia do trabalho e organizacional da Utrecht University, cunhou o termo "workaholic engajado", definido como uma paixão saudável e positiva pelo trabalho. O professor Schaufeli acredita que a diferença crucial está entre aqueles que se sentem "atraídos" pelo prazer de trabalhar e aqueles que se sentem "pressionados" por sensações negativas, como a vontade de fugir da intimidade com o cônjuge ou membros da família. "Se você adora o que faz profissionalmente, então vá em frente. Se você não morre de amores, faça o mínimo."

Excesso de trabalho, no entanto, é uma coisa totalmente subjetiva. "Adoro chocolate. Consigo comer muito e não engordar. Mas, se eu engordasse por causa disso, seria um problema. Nem todo vício destrói sua vida", diz.

Essa definição também depende de diferenças culturais. O que é excesso de trabalho na França pode não ser na China, sugere Baruch. Para aqueles que sentem que têm um problema, Sinclair diz que o principal é resolver os problemas emocionais que dão suporte à compulsão por trabalhar excessivamente.

Ainda assim, ele não acredita que isso possa ser resolvido simplesmente trabalhando menos. "É preciso criar espaço dentro da rotina profissional para perceber como você está se sentindo. Tire um tempo para observar seu comportamento", diz.


*Essa notícia foi publicada no site Valor Econômico, em 07/11/2013

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