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As competências mais valiosas

Mercado
29/06/2009

LG: Que competências são mais raras no mundo corporativo e quais são as dificuldades para desenvolvê-las?

Sílvio: As competências que são mais raras no mundo corporativo variam de país a país, mas na América Latina em geral e no Brasil em particular a mais ausente é o feedback. Quer seja por não saber como informar apropriadamente um liderado que ele fez algo que não devia, quer seja pelo constrangimento de enaltecer um trabalho bem feito, o feedback pode ser considerado praticamente inexistente na cultura corporativa brasileira. Algumas empresas adotam um feedback formal, por escrito, que é pesado demais - conheço pessoas que são traumatizadas após uma reunião de feedback. Por vezes esta modalidade não tem o mesmo efeito daquele realizado a partir de um diálogo apropriado com o liderado. Falar do feedback deste para o líder é ainda mais raro. Por esta razão as empresas brasileiras são lideradas praticamente sem informações relevantes sobre o clima organizacional, fator decisivo para os resultados de longo prazo, a lealdade dos empregados e o crescimento. A dificuldade em desenvolvê-la é que a maioria dos líderes é de origem técnica e, portanto, não possui conhecimento sobre gestão de pessoas com a profundidade necessária para  exercê-la com fundamento, utilizando na maioria dos casos sua experiência ou copiando líderes anteriores. Segundo, a cultura empresarial brasileira ainda é vista de forma monárquica, onde os níveis de cima não são incomodados com más notícias, especialmente com questões como o clima organizacional, o moral dos empregados entre outros. Já o feedback entre profissionais do mesmo nível não ocorre porque as pessoas preferem "ficar de bem" com seus pares a lhes darem uma orientação de que não estão fazendo um bom trabalho e um indivíduo incompetente em nossa cultura não é considerado desonesto, embora roube tempo e recursos dos clientes e acionistas, sobrecarregue seus pares que trabalham para compensar suas deficiências e diminua o valor da marca da empresa.

Outra competência crítica principalmente em tempos de retrocesso econômico é o alinhamento, ou seja, a capacidade de todos "remarem juntos" mesmo que por vezes discordando das orientações dadas pelos líderes maiores da empresa. Sem esta competência, a integridade do comando se quebra e a empresa começa a se fragmentar em grupos de idéias diferentes e que atuam em direções distintas com perda de recursos e foco. A dificuldade em desenvolver o alinhamento é a crença de que a pessoa somente deve fazer o que concorda e que a empresa deve ser capaz de convencê-la a fazer uma determinada tarefa de um certo modo. Isto gera grande perda de energia, principalmente em momentos críticos quando a velocidade dos acontecimentos e questões estratégicas não permite aos líderes tempo para esclarecer e convencer a todos sobre suas decisões e ordens.

LG: A Enlevo oferece cursos para desenvolvimentos de lideranças. Como é um líder exemplar?

Sílvio: Um líder exemplar é aquele que tem como principal foco o desenvolvimento de outros líderes e sabe que este é um fator fundamental para o futuro da empresa - afinal para que ela continue existindo daqui a 5, 10 ou 15 anos, terá de ter alguém liderando. Ninguém acha estranho que um atleta treine todos os dias os fundamentos de seu esporte para atingir e manter-se no topo, entretanto quando o assunto é liderança com frequência vemos líderes que nunca estudaram o tema, tendo se desenvolvido com a experiência própria ou copiando líderes anteriores. Hoje há um grande manancial de estudos com fundamentos científicos que nos ajudam a desenvolver pessoas, definir estratégias, gerir crises, gerenciar mudanças, aprimorar o clima organizacional, administrar o estresse, atingir a alta performance, ter mais resiliência, entre outros tópicos tão relevantes para uma liderança consciente e não apenas empírica. O líder exemplar busca o aprimoramento contínuo, a excelência, a classe internacional para si, seus liderados e sua empresa, desejando fazer parte da elite, pois sabe que somente os melhores se adaptam e crescem mesmo em momentos de contração econômica. Além disso, se preocupam também em atingir um elevado grau de desenvolvimento humano para liderar cada vez melhor e mais próximo das pessoas. Por último, se utiliza de critérios éticos para suas ações com preocupações que vão desde a legislação, passando pelo meio ambiente, segurança das operações e a sustentabilidade.

LG: O senhor fala muito das mudanças aceleradas que estão acontecendo no mundo e que impactam no mercado de trabalho. O que os profissionais precisam desenvolver para atuar no mercado de trabalho do futuro?

Sílvio: O que sempre é exigido do profissional é sua capacidade de adaptar-se aos diferentes cenários que são criados pela economia. Quando estamos em uma fase de expansão do ciclo econômico, esta adaptação é mais fácil, mas na fase de contração, como a atual, o profissional é mais exigido em termos de contribuir para o resultado da empresa.  Um fator importante é ter um conhecimento abrangente sobre como os negócios da empresa funcionam e contribuir para eles: gerando receitas, reduzindo custos, aprimorando processos, produtos e serviços. O profissional do futuro deverá ser incansável em sua atualização, aprendendo cada vez mais e preparando-se para competir com profissionais de outras nações. Falar inglês é imprescindível se deseja ter acesso às oportunidades relevantes para sua carreira - afinal, para manter-se atualizado, precisa ter acesso à mesma literatura e ao mesmo conhecimento da elite, ou seja, dos melhores ao redor do mundo e ambos estarão em inglês antes de serem traduzidos para o português. Se desejar participar de times globais também irá precisar deste idioma. O profissional do futuro deverá interessar-se por atingir um elevado grau de desenvolvimento humano em todas suas esferas (profissionais e pessoais), pois, se não o fizer, não terá equilíbrio, inspiração e energia suficientes para lidar com o estresse que o mundo corporativo impõe a todos.

LG: Em momentos de crise como o que vivemos agora, o que as empresas esperam com mais freqüência de seus funcionários?

Sílvio: Em primeiro lugar alinhamento com as ordens emitidas pela empresa. Afinal por questões estratégicas e em função da dinâmica dos acontecimentos, nem sempre os líderes terão condições e tempo para esclarecer os pormenores de suas decisões. Segundo, resiliência, capacidade de lidar com o estresse e a pressão por resultados, ou seja, como mencionei anteriormente, deverão contribuir com ele: gerando receitas, reduzindo custos ou aprimorando algum processo, produto ou serviço.

LG: Os profissionais brasileiros sabem planejar suas carreiras? O que precisam levar em conta para otimizar as chances de sucesso desses planejamentos? Como fazer esses planos de carreira?

Sílvio: Em geral os profissionais brasileiros não sabem planejar suas carreiras. Focando somente aspectos técnicos. A principal deficiência é que não criam uma rede de contatos relevantes (networking) e se esquecem de que para desenvolverem suas carreirras precisam ser considerados para as oportunidades que surgem. Se forem desconhecidos no mercado, têm poucas chances de que isto ocorra. Portanto, para otimizar as opções de sucesso desses planejamentos devem ter a disciplina de participarem de eventos, treinamentos, feiras e convenções relacionadas à sua área de atuação com o propósito de conhecerem pessoas que estejam um ou mais níveis acima do seu e ficarem conhecidas por elas. Depois devem manter seus contatos, procurando contribuir para estas pessoas a fim de que sejam lembradas e criem vínculos relevantes. O plano de carreira deve ser feito pensando-se no futuro. O profissional deve pensar em como será o mundo daqui a 5, 10 e 15 anos. Neste mundo, como estará sua área de atuação - no Brasil e no exterior? Quais competências um profissional nesta área deverá ter? Ao definir estas competências deve começar a desenvolvê-las desde já para quando o futuro chegar, estar preparado. E rever este plano diariamente ajustando-o em acordo com os acontecimentos econômicos. O profissional deve ser pró-ativo em sua carreira. Utilizar todas as possibilidades existentes para sua evolução: cursos regulares, leituras, coaching, especializações e intercâmbio profissional no exterior se possível. Pensar grande ao desenvolver seu plano, esforçar-se para fazer parte da elite na sua área de atuação, pois é o grupo melhor remunerado e para o qual são direcionadas as melhores oportunidades de carreira.

As competências mais valiosasSílvio Celestino é Sócio-Fundador da Enlevo – Treinamento para Líderes e Vice-Presidente da Federação Internacional de Coaches – Chapter São Paulo. Atua como coach de presidentes, VPs, CEOs e gerentes de organizações na América Latina, Europa, África e Austrália. É também, professor da Universidade Corporativa (UniSescon). 

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