Huma

É preciso equilíbrio entre o ‘médico’ e o ‘monstro’

Mercado
20/03/2012

No clássico da literatura de terror O Médico e o Monstro, o autor Robert Louis Stevenson conta a história do tímido doutor Jekyll, um “amor de pessoa”, mas que após servir de cobaia para seus próprios experimentos químicos acaba se transformando no cruel e psicopata senhor Hyde. A intenção do médico era conseguir isolar a natureza má do ser humano para depois extirpá-la como um tumor. A experiência, claro, falha, e o lado sombrio passou, pouco a pouco, a dominar os aspectos refinados do lorde inglês do século 19.

No mundo corporativo também é possível encontrar doutores Jekyll e senhores Hyde. Claro, as diferenças entre ambos não são caricatas como no livro, mas as famas de “bonzinho” ou do contrário colam em determinadas pessoas e pode ser difícil desfazer-se delas. “Todos temos o médico e o monstro em nós”, avalia a psicóloga organizacional e coach pessoal e profissional Myleny Alencar, em referência às características que nos fazem pessoas boas ou más.

Nem médico ...

Mas quais seriam as vantagens (e desvantagens) de ser aquele eterno boa praça ou então de optar pela cara de mau e por meios controversos para atingir resultados? Afinal, de acordo com o estudo norte-americano Do Nice Guys – and Gals – Really Finish Last? The Joint Effects of Sex and Agreeableness on Income (algo como ‘Bons garotos e garotas realmente duram mais? Os efeitos combinados do sexo e da socialização sobre o lucro’), a agradabilidade não tem muito prestígio no local de trabalho. Segundo Myleny, no entanto, nenhum dos dois extremos traz ganhos. “É preciso um equilíbrio”, recomenda. “Nem totalmente o médico nem totalmente o monstro. Nós precisamos saber lidar com as situações no trabalho.”

Para a especialista, se por um lado, o funcionário que sempre evita conflitos e faz o que lhe pedem pode receber em troca uma confortável estabilidade no emprego; por outro, sempre é preterido no momento de uma promoção, por exemplo. “É conveniente para as empresas que existam os bonzinhos”, afirma a psicóloga. “Mas eles não são os profissionais de destaque. Os colegas e superiores podem até respeitá-lo, mas não o admiram.”

A origem desse comportamento mais passivo, conforme esclarece a consultora, está na forma como certas pessoas lidam com figuras de autoridade – um comportamento que pode estar ligado a questões da infância ou a experiências anteriores. “Essa é a pessoa que fica nervosa na hora de se impor, por isso acaba sendo a ‘boazinha’, ou seja, acaba não querendo correr riscos, sendo legal com todo mundo, trabalhando para todo mundo.”

... nem monstro

O lado “cisne negro” tem o mesmo mecanismo desencadeador, explica Myleny. O que muda é a reação à figura de autoridade. “O ‘mauzinho’ não tem medo”, pondera a especialista. “Ele enfrenta, encara”. Mais uma vez, os ganhos não são muitos. Afinal, se em um primeiro momento, profissionais mais “pé na porta” se mostram perfeitos para um mercado igualmente competitivo, no longo prazo a coisa pode sair do controle – como aconteceu com o pobre doutor Jekyll do livro. “O ‘mauzinho’ não estabelece empatia com os colegas de trabalho”, começa listando Myleny. “Não desenvolve bem trabalhos em grupo e tende a se isolar, porque os demais acabam não querendo o ter por perto”.

A conclusão é que o equilíbrio, mais uma vez, é a melhor saída. É ele que determina um profissional agradável, mas sem perder o pulso firme. Esse é o caminho escolhido pela diretora administrativa Cristiane Nabarrete, que há vinte anos trabalha no competitivo mercado financeiro, mas que jura nunca ter descido do salto. “Eu sou uma pessoa mais fácil de lidar, mais diplomática, nem tanto enérgica”, define-se, ao mesmo em que ressalva: “Mas isso não significa ser boba. Ser educada e respeitar as pessoas não quer dizer que você não saiba exigir delas.”

Atualmente, Cristiane chefia uma equipe de 60 pessoas e conta nunca ter sido prejudicada no trabalho por seu comportamento mais brando. “Quando as pessoas vão me conhecendo e veem que eu não estou aqui para brincar, que eu sei o que estou falando, a coisas ficam claras”, conta. “Porque isso é importante também: dar exemplos e não apenas apontar os erros.”

A única coisa que tira a executiva do sério é o não cumprimento dos acordos feitos com a equipe. O que ela considera um tipo grave de insubordinação. Mesmo nesses casos a opção é pela discrição. “Eu sempre chamo a pessoa para minha sala”, conta, justificando que passar um sabão na frente de todo mundo é um tiro no pé, porque o “show” vai chamar mais atenção do que a mensagem. Além do fato de que ser discreto, para Cristiane, é uma das características de um bom líder. “Eu diria que sou, sim, a chefe que eu gostaria de ter”, diz a diretora.


Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 13/03/12.


 

Comentários

X

Receba as principais atualizações do Portal Huma

Fique por dentro das novidades da área de gestão de pessoas. Assine a newsletter do Portal Huma e receba as principais informações da semana!

Enviar

https://www.lg.com.br/