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Empresas orientam funcionários sobre planejamento para a aposentadoria

Mercado
01/03/2016

Eduardo Koatz, 65, está dedicando a aposentadoria para perseguir o sonho de ser jogador de futebol. De botão. Ele decidiu sair da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) quando deixou o cargo de vice-diretor em Brasília, em 2011, o ponto mais alto da carreira de 17 anos na empresa. A decisão de trocar a mesa de trabalho pelo futebol de mesa, porém, não foi simples. "Eu me perguntava 'será que o dinheiro vai dar conta? O que eu vou fazer?'", diz.

À época, a Fiocruz estava no segundo ano do Programa de Preparação para a Aposentadoria (PPA), iniciativa destinada a ajudar funcionários a fazer essa transição. O interessado em participar é entrevistado pelo RH e, depois, convidado para nove encontros em que são discutidos temas como regras para aposentadoria, planejamento financeiro e relações sociais e familiares. 

A ideia é que, ao final, o participante tenha um "projeto de vida" claro para os anos pós-trabalho. Sem a rotina do emprego, muitos desenvolvem problemas de saúde, principalmente depressão, diz Conceição Robaina, integrante da equipe que coordena o PPA.

Problemas emocionais também foram uma das motivações para a mineradora Anglo American iniciar em julho do ano passado o programa Saber Viver. "Vimos casos de depressão e alcoolismo entre nossos ex-funcionários por se sentirem incapacitado", afirma Elias Silva, diretor de RH da unidade em Cubatão (SP). 

"No fundo, é o seguinte: qualquer empresa pega você e molda sua cabeça durante o tempo que você está lá. Então, quando você sai, lá pelos 60 anos, fica desorientado mesmo, sem saber o que fazer da vida", diz Koatz. 

Por isso, a família tem um papel importante para ajudar o aposentado a lidar com as mudanças. No Saber Viver, o funcionário é encorajado a levar companheiro ou companheira e filhos aos encontros. Gilson Evangelista, 56 anos de idade e 30 de Anglo American, participou da primeira turma do programa acompanhado pela mulher. A principal preocupação do casal para quando ele se aposentar é o sustento dos filhos. "Eu achava que não serviria mais para nada quando parasse de trabalhar, mas agora estou com o projeto de abrir uma fábrica de gelo", diz.

Empresas orientam funcionários sobre planejamento para a aposentadoria

PÓS-CARREIRA

No Grupo BB e Mapfre, o programa deixou de se chamar "pré-aposentadoria" para tornar-se "pós-carreira" (PPC) há seis meses. Segundo Cynthia Betti, diretora de RH da empresa, a mudança aconteceu para deixar claro que não se trata de um incentivo à aposentadoria, mas um estímulo para o funcionário pensar no que fará quando deixar o emprego. Os encontros são divididos por faixa etária: um grupo formado por pessoas entre 40 e 49 anos, e outro por aquelas com 50 anos ou mais. Os temas abordados são planejamento financeiro, saúde e projeto de vida. Quem está mais perto de se aposentar também pode optar por um coaching personalizado, diz Betti.

Depois de ir aos encontros, Glória Pires, 52, gerente de negócios funcionais da área de TI, fez mais um plano de previdência privada para cobrir os gastos futuros com saúde -algo que não havia levado em conta. Quando se aposentar, ela não pretende parar de trabalhar. O plano é seguir a carreira de cuidadora, diz.

Bento Zanzini, 64, passou pelo PPC no ano passado, antes de deixar o cargo de executivo do grupo, e hoje participa como palestrante e "história de sucesso". Zanzini emendou o fim da carreira executiva com dois novos projetos: tornar-se "coach", criando uma empresa em parceria com a filha, e presidir a Associação para o Desenvolvimento Integral do Down, que mantém uma escola para pessoas com síndrome de Down. "Minha vida hoje é muito agitada, mais animada, mas sem a pressão de quando era executivo", afirma.

BEM-ESTAR

O interesse pelas empresas na transição para a aposentadoria do funcionário começou nos anos 1980, mas ganhou nova roupagem nos últimos anos. Inicialmente, o objetivo desses programas era incentivar a saída de funcionários mais velhos para renovar o quadro, diz a consultora Lúcia França, que trabalha há 25 anos na área. "Era uma preparação 'vapt vupt' para as pessoas saírem. Não havia de fato uma preocupação com o trabalhador."

Com o envolvimento de profissionais de gerontologia, o foco mudou. O Estatuto do Idoso, promulgado em 2003, estabelece que o poder público "criará e estimulará" programas de preparação dos trabalhadores para a aposentadoria, com antecedência mínima de um ano. Atualmente, há iniciativas disponíveis até para quem ainda está na faixa dos 40 anos, como o Programa Pós Carreira, do Grupo BB e Mapfre. "Não é que a empresa esteja sendo boazinha ao pensar no funcionário aposentado. É uma questão de ações que valorizam a imagem dela, de responsabilidade social", afirma França. 

Para João Marcio Souza, diretor da consultoria de RH Talenses, as organizações exploram pouco o tema no Brasil. Ele recomenda que, independentemente da empresa, a pessoa comece a se preparar para a aposentadoria quando chegar a um cargo gerencial. Outra dica do diretor da Talenses é investir na rede de contatos. "Você vai perder o rótulo de 'fulano da empresa tal' e terá que ser reconhecido no mercado pelo seu valor individual", afirma. Mas continuar uma vida profissional não é obrigação. Segundo Souza, é importante permitir-se parar depois de anos de carreira. "Você já deu o suficiente e pode colocar um ponto final nisso."

Essa notícia foi publicada no site da Folha de S.Paulo, em 21/02/2016

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