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Escritórios descolados mostram novas formas de trabalho

Mercado
04/06/2013

Pebolim, palco para apresentações, mesa de concreto para 200 pessoas, redes de descanso. Todos esses itens estão em escritórios pelo mundo.

As mudanças nas relações corporativas, com maior flexibilidade de horários e local de trabalho, abrem espaço para locais descolados. Entretanto, é preciso cuidado para não cair em um modismo que não produz resultados.

De acordo com o arquiteto Edo Rocha, do escritório de mesmo nome, com clientes como Vale, Santander e HP, é preciso evitar os projetos "kindergarten" (jardim de infância), ou seja, em que apenas existam itens de lazer que estão em evidência, mas não contribuem com o trabalho.

"Não adianta seguir padronizações ou construir itens apenas bonitos esteticamente. Tem muito 'kindergarten' por aí: escritórios exagerados e não funcionais."

 As prioridades, segundo ele, em um projeto devem ser soluções para mobilidade, armazenamento e comunicação. O conforto deve abranger itens visuais (design, iluminação e cores), auditivo (acústica), ergonomia (equipamentos e local de trabalho) e qualidade do ar (ventilação e controle de fungos e dióxido de carbono).

Hoje, as empresas se esforçam para parecer mais flexíveis do ponto de vista dos horários de trabalho e menos burocráticas.

Por exemplo, o projeto da sede da empresa de entretenimento XYZ Live em São Paulo foi desenvolvido por uma equipe de arquitetos e cenógrafos com a intenção de materializar em 2.400 metros quadrados os conceitos da companhia.

No total, o escritório custou R$ 3,8 milhões.

"Temos um palco, locais para jantares, festas e jogos", afirma o presidente da companhia, Bazinho Ferraz, 40. Mas ele não esconde um dos motivos desse investimento.

"A intenção é que todos tenham o desejo não só de trabalhar aqui, mas, sim, até de morar."

O projeto do prédio da empresa de informações financeiras Serasa Experian, que abriga 800 pessoas em São Paulo, permite, por exemplo, que cada funcionário controle o ar condicionado no piso em que está trabalhando.

MINHA CASA


O aspecto do tempo que se passa dentro da empresa é ressaltado pelos arquitetos, por isso o investimento em equipamentos de ginástica, salas de massagem, pontos de café e cantinas.

"As pessoas não podem fazer um trabalho monótono por longos períodos", diz o russo Peter Zaytsev, do escritório za bor Architects, que trabalha com clientes de tecnologia.

"Se um escritório dispõe desses espaços, as pessoas não vão sentir falta de conforto e serão capazes de ficar lá mais tempo", afirma.

Também existe a preocupação de fazer com que as pessoas se comuniquem mais pessoalmente.

O arquiteto sul-africano Clive Wilkinson, do escritório Clive Wilkinson Architects, que trabalhou no projeto da sede do Google em Montain View (EUA), considera que o local de trabalho hoje precisa ser transparente, aberto e "altamente colaborativo".

"O objetivo de um projeto é o compartilhamento de conhecimento para aumentar a velocidade de criação de novas ideias e produtos", diz.

"O escritório é mais como um saguão de hotel, onde o encontro entre as pessoas é mais importante do que espalhar computadores."

Por exemplo, a agência de publicidade Mother, em Londres, tem em seu escritório uma mesa de concreto para 200 pessoas trabalharem em conjunto.

Já o complexo administrativo do Google, com 2 milhões de metros quadrados, possui prédios com instalações recreativas integradas com os espaços de engenharia de software e pequenas tendas de vidro para reuniões rápidas de trabalho.

"O escritório moderno deve incentivar o movimento dentro do ambiente para que as pessoas não se sintam em um só lugar todo o dia", completa Wilkinson.

O brasileiro Juan Carlos Raphael Najhan de Almeida Câmara, 29, ganhou neste ano um concurso da multinacional de design para escritórios Herman Miller apostando nessa ideia.

No ambiente que ele concebeu, os funcionários podem trabalhar onde quiserem e quando quiserem.

"No futuro, o trabalho remoto, às vezes em casa, vai se tornar comum, então os escritórios serão mais espaços de encontro, de debate de ideias", defende.

Para ele, a empresa do futuro pode ter tobogã, sala de jogos e sala zen. "Esse é outro fator muito importante do escritório do futuro. O espaço lúdico e divertido acelera a criatividade", afirma.

NÃO PARA TODOS


Apesar dos benefícios, até os profissionais da área afirmam que ambientes descolados não são para todas as empresas.

Sergio Athié, diretor de arquitetura do grupo A|W, destaca que muitas companhias têm modelos de organização muito tradicionais, com horários fixos e estações de trabalho no mesmo lugar, o que exige mais cuidado na elaboração de projetos.

Hoje, valoriza-se muito os espaços abertos e coletivos de trabalho, mas setores como jurídico e contábil não têm por tradição isso. Uma solução são as salas de colaboração, usadas apenas durante alguns períodos do dia. "Elas são mais informais, em um espaço a parte, com configuração diferente e recursos tecnológicos", explica.

DETALHES

O projeto do prédio da empresa de informações financeiras Serasa Experian, que abriga 800 pessoas num espaço total de 18.000 m², possui 4.800 m² de jardins arborizados, áreas de descanso, bancos em áreas externas sob as árvores, lounge externo para reuniões ao ar livre, áreas de descanso, jardim sensorial para cegos, copas com sofás e mesas em todos andares para refeições rápidas e café.

Arnaldo Borgia, 54, gerente de operações da empresa, informa que o projeto foi desenvolvido em 16 meses e custou cerca de R$ 1 milhão. "O edifício foi projetado para ter o máximo de luz natural, estações de trabalho com altura regulável e sistema de ar condicionado com insuflamento pelo piso nos escritórios, que permite o controle individual da vazão e da temperatura do ar", conta.

A primeira etapa do projeto foi dispendida com um "space planning", no qual foram levantadas todas informações sobre os processos e atividades realizadas por todos funcionários. "Esse ambiente positivo do edifício contribuiu muito para a comunicação interna, produtividade e menores rotatividade e faltas no trabalho", afirma.

Deborah Lacerda, diretora de workplace services para a América Latina da Dow Química, conta que o escritório da companhia em São Paulo demorou dois anos para ser concluído. Foi realizado um estudo interno local e global, isto é, integrado com as demais sedes administrativas da empresa no mundo. "Foram compartilhadas experiências com a matriz, localizada em Midland, nos Estados Unidos, e com outros países onde a Dow possui escritório, com o intuito de trocar conhecimento e experiências a fim de aprimorar o modelo de escritórios corporativos. Além disso, o time envolvido realizou pesquisas nas quais houveram muitas interações com entidades e universidades internacionais, como, por exemplo, com o grupo Ideation e com Harvard", destaca.

Funcionários de diferentes níveis e cargos em São Paulo foram consultados por meio de reuniões programadas e focadas no novo projeto do escritório com o objetivo de entender as necessidades e a realidade do ambiente que esperavam compartilhar. Também foram formados grupos para desenvolvimento de diversos temas a serem incorporados e trabalhados no projeto, como, por exemplo, acessibilidade, áreas de convivência, espaços colaborativos, entre outros, sempre orientado por consultores especializados em arquitetura corporativa.

Um exemplo disso foram as Innovation Rooms (salas de inovação), que foram concebidas a partir das discussões com funcionários, que indicaram a necessidade de um ambiente que permitisse a discussão de ideias e a interação, além de proporcionar convivência e descontração no ambiente de trabalho.

Hoje o espaço de 13.000 metros quadrados abriga 915 pessoas. Lacerda diz que o objetivo era proporcionar um ambiente inovador, confortável e sustentável que permitisse otimizar a comunicação, interação e sinergia entre os colaboradores com transparência. Para ela ainda, a cultura da empresa foi transmitida para o projeto por meio de muita interação. "Fizemos isso por meio de reuniões programadas, apresentações e discussões formadas sempre com equipes multidisciplinares envolvidas."

VANGUARDA


Este ano, de 9 a 14 de abril, o SaloneUfficio, a bienal internacional de design de interiores para escritórios realizada em Milão, apresentou uma instalação do prestigiado arquiteto francês Jean Nouvel, vencedor do prêmio Pritzker em 2008.

O trabalho "Project: office for living" (em inglês, projeto: escritório para viver) usou uma área de 1.200 m² do pavilhão do SaloneUfficio para explorar conceitos de construção contemporânea, porém com uma rejeição da clonagem, alienação e padronização em série dos espaços corporativos.

O racionalismo, por exemplo, forneceu o tema para o espaço final: um sistema de escritório high-tech, em plano aberto, o qual, enquanto em conformidade com normalidade e à normalização racional, é voltado para a transformação. Segundo a assessoria de imprensa do SaloneUfficio, a pegada, que pode parecer estática e repetitiva, é na verdade de forma livre: deslizamento, paredes dobráveis para permitir escritórios individuais a serem construídos, ou abrindo-se para o espaço ao lado ou no corredor ou fornecendo isolamento. As portas são de correr ou de dobrar, há cortinas para regulação de luz, com vidro fosco para intimidade. Madeira sofisticada e acabamentos cromados e componentes de alta tecnologia transmitem uma sensação de luxo.

Mobiliário de várias épocas diferentes são combinados, incorporando objetos de diferentes esferas. A abertura do espaço permite que todos se expressem livremente, construindo o seu próprio trabalho em ambientes: separar-se de seus vizinhos ou em estreito contato; sentados em suas mesas ou se entrincheirando sobre eles. O ambiente tem diferentes variedades de madeira, papelão, couro e plástico colorido, coroado com objetos atípicos e inesperados.

"Uma vez que rejeitam os espaços clonados e alienados, torna-se claro que existem muitas soluções possíveis", diz Jean Nouvel por meio de sua assessoria. "Temos que mudar nosso comportamento, planejar e pensar em trabalhar com uma mentalidade diferente: não importa onde um escritório situa-se, tem que ter um espaço que pode chamar de seu, identificável, alterável, em uma escala humana, com sua própria história e objetos, um ambiente agradável, basicamente."


*Essa notícia foi publicada no site Folha de São Paulo, em 02/06/2013

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