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Ética não é coisa que se tem

Mercado
23/02/2011

 

* Por Júlio Pompeu

O diretor da empresa me recebeu estendendo um livreto e sentenciando:

- Aqui nós temos ética! - Disse com o olhar e a firmeza de quem está acostumado a mandar.

Peguei o livro, era o código de ética da empresa. Capa bonita e papel couché. Como eu não dizia nada, apontou na parede um quadro com a missão, visão e valores. Em todas as categorias a palavra “ética” aparecia.

-Viu? Temos ética. – Insistia.

Continuou a conversa falando de alguns problemas que ele enfrentava todo o dia. O marketing não dialogava com o pessoal do comercial. Os gerentes não comunicavam à diretoria uma série de problemas por medo de retaliações. Vários clientes e fornecedores reclamavam do atendimento e assim por diante. Em suma, a empresa teria ética sem que, no entanto, alguém a praticasse.

É comum que falar de ética como um objeto que, uma vez possuído, todas as relações internas e externas de uma empresa seriam revolucionadas para melhor. Como um objeto mágico capaz de afetar a todos de respeito e senso de responsabilidade. É curioso como adultos que não crêem em magia ou bruxaria, são capazes de tratar ética como um objeto encantado. Este “encanto” se explica como uma forma de conjugar, por um lado, o senso comum que representa a ética como um objeto - Ora associado ao caráter (tem a ética dentro de si), ora a um conjunto de regras ou valores (tem a ética no código) – e, por outro, a ética como uma relação entre pessoas conscientes. A visão mágica faz da ética uma coisa que qualificaria relações. É solução tosca, um quebra-galho para ajustar idéias de naturezas diferentes. Ou a ética é uma coisa que se tem ou ela é algo que se faz. Ou um objeto, ou uma relação. Os dois ao mesmo tempo, não.

O problema está no senso comum. Ética não é um objeto que se pode ter, mas algo que se pratica e, portanto, não pode ser comprada ou doada a outros na forma de um livro. Ter um código de ética é ter apenas um livreto, nada mais. A ética em determinado ambiente social, seja o empresarial ou qualquer outro, requer que as relações entre os participantes desse grupo ou empresa se relacionem, basicamente, com respeito mútuo. Isto parece simples, mas não é. As relações quotidianas acabam por ocultar, na forma da rotina e dos hábitos, uma série de desrespeitos, como o chefe que trata os subordinados como gado ou o sujeito que urina displicentemente fora da privada e joga papel no chão, indiferente ao trabalho do faxineiro. Ou ainda o vendedor que trata o cliente como um debilóide ao simplesmente negar um defeito evidente do produto. Tudo isso é desrespeito, é falta de ética, mas travestida de desculpas do tipo: os faxineiros são pagos para isso mesmo ou os clientes não ligam pro defeito, eles só querem saber de preço. A base do desrespeito é o apequenamento da visão do outro. Respeitar é, fundamentalmente, reconhecer o outro como igual ou, ao menos, um semelhante merecedor das mesmas deferências e castigos que você se permitiria impor.

O que torna qualquer ambiente mais ético é a compreensão, pela observação e exposição, das boas e más atitudes efetivamente praticadas pelos que participam desse ambiente. Um exercício de autocrítica coletivo que dificilmente é feito de forma espontânea. Quanto ao código e colocar a palavra ética em tudo que a empresa faz, pode até ajudar, mas sem que as pessoas se percebam como agentes morais e reflitam sobre suas relações, só servem para criar a ilusão de ser ético. 

Júlio Pompeu é graduado em Direito e em Filosofia, mestre em Direito e doutorando em Psicologia. Atualmente preside o Conselho de Ética Pública do Estado do Espírito Santo e leciona ética na Universidade Federal do Espírito Santo. Com a finalidade de tornar a filosofia, em especial a ética, acessível ao grande público, oferece cursos e palestras na Casa do Saber do Rio e de São Paulo e em órgãos públicos e empresas desde 2004 sobre Filosofia moderna e contemporânea.

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