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Formalidade e rendimento médio do trabalho estão melhores, informa Ipea

Mercado
04/10/2010

 

Os efeitos negativos da crise mundial se fizeram sentir no mercado de trabalho brasileiro, embora com intensidade aquém da esperada. Essa é a principal conclusão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que consta das análises sobre o mercado de trabalho no País, divulgado na semana passada, a partir de dados da mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Carlos Henrique Leite Corseuil, técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, explicou que “apesar de alguns indicadores quantitativos terem apresentado piora, como o desemprego e a queda da ocupação na indústria e no transporte, houve evolução positiva em uma série de índices qualitativos, como grau de formalidade e rendimento médio de todos os trabalhos”.

O Pnad 2009 – Primeiras análises: o mercado de trabalho brasileiro em 2009 avalia o comportamento do mercado de trabalho brasileiro no ano passado, procurando referenciá-lo no contexto de seu desempenho ao longo da década. Analisa a taxa de participação dos homens e mulheres no mercado de trabalho, crescimento ocupacional, formalização, participação dos ocupados por setor de atividade, escolaridade e idade, taxa de desocupação e rendimento.

Segundo Corseuil, os dados devem ser contextualizados a partir do cenário macroeconômico: “De modo geral, os resultados obtidos em 2009, apesar de melhores do que se chegou a temer no início da crise, refletem as dificuldades da economia no período analisado.”

A População em Idade Ativa (PIA) chegou a 160,4 milhões de pessoas em 2009. Desse total, 59,5% (95,4 milhões) faziam parte da População Economicamente Ativa (PEA), ou seja, estavam inseridas no mercado de trabalho, somando 86,7 milhões de ocupados e 8,6 milhões de desempregados. Ao comparar os dados de 2009 com os obtidos em 2008, pode-se observar que a PIA registrou variação de 1,4% (2,23 milhões de pessoas acima de 10 anos de idade), enquanto a PEA variou 2,2% (2,06 milhões). Na comparação entre 2001 e 2009, a PIA aumentou 15,5% e a PEA, 18,6% – o que representa variação de 21,4 e 14,9 milhões de pessoas, respectivamente.

Mulheres

O comportamento das mulheres tem sido determinante para as variações ocorridas na taxa de participação – razão entre PEA e PIA. A taxa de participação agregada teve um aumento, em relação a 2008, de 0,5 ponto percentual. “Essa variação se deve exclusivamente à maior participação feminina na PEA, que passou de 48,8% para 49,7% em 2009”, afirma o técnico do Ipea.

Também nota-se um quadro análogo, e ainda mais nítido, quando se toma a comparação na década. A taxa de participação agregada cresceu 1,6 ponto percentual entre 2001 e 2009, sendo que nesse período a taxa de participação diminuiu 1,2 ponto percentual para os homens e subiu 4,1 pontos percentuais para as mulheres.

A população ocupada cresceu em 680 mil pessoas entre os anos de 2008 e 2009, alcançando 86,7 milhões de pessoas – o que representa variação de 0,8%. Esse crescimento não foi tão expressivo se comparado ao observado nos últimos anos. Entre 2005 e 2008, por exemplo, houve aumento superior a 1 milhão de pessoas ocupadas por ano. Se considerado apenas 2008, o aumento, em relação ao ano anterior, foi de cerca de 2,5 milhões de pessoas ocupadas. Para Corseuil, a diminuição brusca do ritmo de crescimento da população ocupada sugere reflexos da crise financeira mundial de 2008-2009.

Postos de trabalho

Em 2009 foi registrada a menor taxa de crescimento da década para a população ocupada, e a expansão dos postos de trabalho foi inferior ao crescimento da PIA, fenômeno que também ocorreu em outros dois anos da década (2003 e 2007). No período de 2001 a 2009, a variação da ocupação foi de 19,9% – correspondente a uma taxa média de 2,3% ao ano.

Em 2009, em relação a 2008, verificou-se decréscimo da população ocupada nos setores de transporte (-3,5%), indústria (-2,2%) e agrícola (-0,6%). Os demais setores apresentaram crescimento, com destaque para serviços (7,1%), administração pública (4,8%) e comércio (2,5%). “Ao analisar o período de 2001 e 2009, observa-se que praticamente todos os setores pesquisados elevaram seu nível de ocupação, à exceção do setor agrícola, único a apresentar desempenho negativo (-13,3%)”, destaca Corseuil.

Informalidade e escolaridade

Entre 2008 e 2009, a variação absoluta nos postos de trabalho considerados protegidos (trabalhadores com carteira de trabalho assinada, inclusive trabalhadores domésticos, além de militares e estatutários) foi superior à variação do total de ocupados – 680 e 764 mil, respectivamente. Isso contribuiu para uma queda ainda maior no grau de informalidade, que, em 2009, ficou em 48,45%, o menor nível da década. A população ocupada formal, em contrapartida, aumentou sua participação no total de ocupados em 7,2 pontos percentuais nesse mesmo período.

Quanto à composição da força de trabalho por escolaridade, observa-se que no período entre 2001 e 2009 houve um aumento da ordem de 15 pontos percentuais da participação de trabalhadores com 11 anos de estudo ou mais. Já para as demais faixas de escolaridade, registrou-se uma diminuição de aproximadamente 9 pontos percentuais para aqueles com até 3 anos de escolaridade e de 6 pontos percentuais para a faixa de 4 a 10 anos de estudo. “Isso pode ser explicado por uma combinação de maior escolaridade dos novos ingressantes no mercado de trabalho com uma maior procura das empresas por trabalhadores mais qualificados”, afirma Corseuil.

Na análise do Ipea por faixa etária, os indivíduos com mais de 24 anos passaram a participar mais da força de trabalho. A faixa de indivíduos com 50 anos ou mais, por exemplo, apresentou um incremento de 3,6 pontos percentuais entre 2001 e 2009. A maior participação dos indivíduos dessa faixa etária na força de trabalho pode ser explicada pelo aumento do grupo no total da população brasileira, que foi de 40% entre os anos de 2001 e 2009.

Taxa de desemprego

Na análise da década (2001 a 2009), nota-se que o desemprego vinha caindo constantemente desde 2005, atingindo o menor valor da década em 2008 (7,8%). Contudo, esta trajetória foi interrompida por um aumento de 1,3 ponto percentual em 2009, quando a taxa de desemprego atingiu 9,1%.

Segundo Corseuil, o aumento do desemprego no ano passado pode ser creditado principalmente a dois fatores: aumento do número de pessoas à procura de emprego, expresso pelo aumento na taxa de participação, e redução na capacidade de geração de novos postos de trabalho, expressa pelo menor crescimento da população ocupada.

Por outro lado, o rendimento real médio de todos os trabalhos em 2009 (R$ 1.068,39) correspondeu ao maior valor desde 2001. No ano passado, os rendimentos reais continuaram exibindo uma trajetória de recuperação, após diminuições expressivas no início da década. “Podemos relacionar o aumento dos rendimentos com a participação crescente de pessoas escolarizadas entre os ocupados, uma vez que no período analisado (2001-2009) houve um aumento da participação de trabalhadores com 11 anos ou mais de estudo, que recebem rendimentos mais elevados (média de R$ 1.601,42 em 2009)”, explica Corseuil.

Mudança de cenário

O sociólogo Clemente Ganz Lúcio, diretor Técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), afirma que “os dados e a interpretação do Ipea sobre o mercado de trabalho estão corretos, mas é importante lembrar que eles representam apenas uma fotografia daquele momento, em outras palavras, é uma avaliação da situação entre os meses de setembro e outubro de 2009, geralmente o período do ano em que os dados do Pnad são coletados”.

Segundo Clemente, a recente análise do Ipea se baseia em informações apuradas há cerca de um ano e, portanto, a situação do mercado de trabalho brasileiro já mudou, e para melhor, enfatiza, em vários aspectos, inclusive aumento da taxa de ocupação, ou seja, o desemprego voltou a cair. “A despeito de seus desafios, o Brasil, o último a entrar na crise e o primeiro a sair dela, está mostrando o vigor de sua economia, com possibilidade de fechar 2010 com crescimento perto de 7%, o que naturalmente impacta de forma positiva o mercado de trabalho”, informa o diretor.

“Hoje o mercado de trabalho apresenta taxas de ocupação com crescimento semelhante ao período pré-crise mundial. Só entre janeiro e agosto deste ano já foram criados mais de 1,6 milhão postos de trabalho formais, enquanto durante todo o ano de 2009 o número de novos empregos gerados ficou perto de 1 milhão”, explica.

Apesar da melhora, Clemente ressalta que o número de postos de trabalho criados continua sendo insuficiente para atender todos os ingressantes no mercado de trabalho. Segundo ele, o País ainda convive com uma série de mazelas que precisam ser enfrentadas: “Temos carência de qualidade nos empregos oferecidos e muitos jovens entre 16 e 20 anos que, prioritariamente, deveriam apenas estudar estão no mercado por necessidades financeiras; isso sem falar na demanda por uma quantidade maior de postos de trabalho.”

O diretor do Dieese informou que o desemprego atualmente deve atingir mais de 10 milhões de brasileiros, considerando a população economicamente ativa em torno de 90 milhões de pessoas.

Essa notícia foi publicada no Canal RH, em 30/09/10.

 

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