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Lidar com problemas pessoais dos funcionários

Mercado
29/06/2009

 

O Instituto Ethos, organização não governamental (ONG), que ajuda empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável, é uma das defensoras da tese de que a empresa pode e deve auxiliar seus empregados a resolverem crises pessoais. Para tanto, a ONG aconselha as organizações a pesquisarem entre seus trabalhadores que aspectos de suas vidas pessoais dificultam a concentração nas tarefas durante o horário de trabalho; evitarem marcar reuniões e outros projetos em horários que o empregado estaria, normalmente, com a família; oferecerem dias livres para que os colaboradores possam resolver seus problemas pessoais em regime de compensação e várias outras medidas. 

O problema é que a maioria dos empregadores ainda não faz isso. E o pior, não estão preocupados com o assunto. De acordo com a médica do trabalho, Margarida Barreto, especialista em violência moral no trabalho, em 90% dos casos as empresas se mantêm omissas quanto à saúde psicológica de seus colaboradores. "Muitos empresários ainda têm idéias retrógradas quando se trata da qualidade de vida de seus trabalhadores, pensando em aumentar a produtividade e a lucratividade de sua empresas", explica a médica. A falta de atenção aos problemas que um funcionário enfrenta fora do escritório pode levá-lo, inclusive, a adoecer. 

Quando a empresa não respeita o momento difícil que um colaborador está enfrentando, o problema pode se tornar ainda mais grave e dar início a uma situação de estresse e falta de motivação para o trabalho. A pressão para continuar produzindo coloca os trabalhadores em uma situação de vulnerabilidade para uma série de transtornos mentais, explica Margarida. A partir daí, é fácil surgirem outras dificuldades como cansaço, fadiga mental, depressão, síndromes de burnout e do pânico, lista a profissional. 

Apesar disso, há a cobrança pela separação dos problemas pessoais da vida profissional, que agrava ainda mais o estado de quem está sofrendo por algo não relacionado à empresa. "Esse é um velho discurso para o qual muitos apelam, mas não somos um corpo fragmentado e as emoções e sentimentos não podem ser colocados em uma maleta e deixados em casa", acredita Margarida. Portanto, é quase impossível não levar um sofrimento de casa para o escritório. 

Na opinião da médica, prima-se pelo discurso de responsabilidade social, mas nem sempre há a capacidade de se zelar pelo bem estar e pela qualidade de vida dos trabalhadores. Além disso, a situação se complica porque há uma cobrança constante da sociedade por uma postura "sempre feliz". Essa maneira de se comportar perante o mundo acaba criando o que a profissional de Saúde chama de "política do contentamento geral" e estimula o cinismo e a indiferença com o sofrimento do outro.

 Falta de diálogo

 Um dos gerentes de uma empresa paulistana estava enfrentando um problema de doença na família. Como o seu pai tinha câncer, ele solicitou à diretoria afastamento para dar suporte aos familiares. Após o falecimento do genitor, ao voltar para o trabalho, o funcionário encontrou uma outra pessoa em seu lugar. Foi demitido assim que chegou à companhia. 

O caso foi contado pelo headhunter e diretor da consultoria Authent, Pedro Carvalho. Ele, que lida diariamente com executivos que precisam de aconselhamento, diz saber de várias situações em que as empresas preferem demitir ao invés de ajudar os colaboradores a enfrentar seus problemas pessoais. Por isso, Carvalho aconselha que qualquer decisão a respeito de contar um problema para o empregador deve ser tomada com muita cautela. 

"Infelizmente nem todas as companhias têm a consciência de que podem ajudar seus funcionários e em muitas o empregado ainda corre o risco de ser mal interpretado", diz o headhunter. Parece cruel, mas são raros os casos em que há uma equipe preparada para conciliar os interesses particulares dos colaboradores com o dia-a-dia no escritório. 

Teoricamente, a melhor saída nestes casos seria um diálogo com os superiores, mas como a conversa nem sempre surte efeito, Carvalho explica que é sempre mais aconselhável se abrir, antes, com um colega fora da equipe de trabalho ou com um profissional de coaching. O ideal seria que o próprio setor de Recursos Humanos estivesse preparado para resolver a situação, mas como o próprio diretor reconhece, "muitos profissionais de RH acham que sua função é apenas a de pagar a folha e não tem competência para visualizar comportamentos".

 Encurtando a distância com o empregado

  •  Sempre há a possibilidade de melhorar o relacionamento com o funcionário. Por meio de medidas simples, colaboradores podem estabelecer relações de confiança com seus superiores e evitar desgastes caso surjam problemas privados. A seguir, o Instituto Ethos dá algumas dicas de como fazer isto. 
  •  Faça uma pesquisa. Pergunte aos seus funcionários que problemas pessoais são capazes de atrapalhar a concentração nas tarefas diárias. A partir daí, pense na possibilidade de oferecer ajuda profissional para ajudar a reduzir estas dificuldades. 
  • Não obrigue seu funcionário a modificar sua agenda pessoal em prol da empresa para não acabar prejudicando a vida familiar do empregado. Reuniões fora do horário, eventos no horário de almoço e viagens sem aviso prévio causam estresse se não forem recompensadas ou marcadas com antecedência. 
  •  Se algum membro da equipe estiver com um problema, ofereça alguns dias ou horários específicos dentro da jornada de trabalho para que possam se dedicar a solucionar a dificuldade. Há empresas que utilizam a chamada "semana compactada", na qual os funcionários fazem 40 horas de trabalho em quatro dias. 
  •  Determine dias e horários específicos, caso o problema do funcionário seja grave, para que ele possa trabalhar à distância, a partir de sua própria casa. 

Adiante-se e ofereça ajuda para a solução dos problemas pessoais mais comuns. A empresa pode identificar instituições que cuidem de idosos, com taxas de desconto para os parentes de funcionários; dispensar o colaborador para o trato de doença dos filhos, cônjuge ou familiar; criar creches ou locais específicos de amamentação para as novas mães; oferecer "disque-serviços" para que funcionários possam obter aconselhamento sobre temas variados, como cuidados com crianças, assistência jurídica, estresse e outros.

 Fonte: Canal RH

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