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Universo corporativo ainda discrimina a bipolaridade

Mercado
15/01/2013

“Essa é uma desordem que afeta milhares de pessoas e eu sou uma delas”, declarou a atriz britânica Catherine Zeta-Jones à revista norte-americana People quando revelou sofrer do chamado transtorno afetivo bipolar. O problema é caracterizado pela oscilação do paciente entre fases – ou polos, daí o termo – de depressão e euforia. Períodos, no entanto, que ultrapassam o que poderia ser considerado normal a qualquer pessoa, chegando a durar três ou quatro semanas. O Oscar de melhor atriz coadjuvante que a atriz levou para casa em 2003, por sua atuação no musical Chicago, já deveria ter mostrado como o distúrbio não necessariamente afeta o desempenho profissional – ainda que no mundo artístico caibam subjetividades que o corporativo tende a não tolerar. Mas imaginem uma Catherine patologicamente desmotivada tendo que protagonizar as exuberantes cenas de música e dança que compõem o filme do diretor Rob Marshall?
 
Apesar disso, a pecha de “instáveis” ainda pesa sobre as pessoas que sofrem de qualquer distúrbio que se dê, digamos, fora da seara física, que tende a ser compreendido mais facilmente – muito embora problemas como a bipolaridade não tenham nada a ver com aqueles dias de mero mau humor, pelo qual passa qualquer um de nós. E sendo assim, o mundo do trabalho, que supostamente funciona à sombra da infalibilidade, pode facilmente ser considerado incompatível com os profissionais que tenham essa característica em seus perfis. Ocorre, no entanto, que esse pensamento não corresponde à verdade. É o que esclarece o médico psiquiatra José Gallucci, chefe da Unidade Metabólica do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM/USP). “O executivo de alto rendimento intelectual que tem transtorno bipolar e está em tratamento regular tem uma vida e um desempenho profissional normais”, esclarece. “Dizer que essa pessoa tem um comportamento x ou y no dia a dia – não estando em uma fase – porque ela tem esse transtorno é uma extrapolação do que vem a ser o problema.”

Se a teoria não convenceu, talvez a prática ajude a mostrar como o transtorno bipolar, mesmo de natureza crônica, não é mais impeditivo do que a hipertensão para o bom desempenho de um profissional. A executiva da área de telefonia móvel de uma grande empresa do ramo, T. C. – que não quis ter seu nome revelado justamente por conta do preconceito – atua no mercado há 12 anos, e conta que o problema nunca a impediu de cumprir suas funções e atingir as metas impostas a ela e à sua equipe – atualmente de 40 pessoas. Mas ela se lembra da avaliação de um antigo vice-presidente de Marketing de uma empresa onde trabalhou, segundo a qual ela não teria “estrutura emocional” para ocupar um determinado cargo de liderança. “Mesmo que tenha ficado mais que provado, por meio de diversas avaliações em gestão de desempenho, que isso não era verdade”, explica a profissional. “Eu tenho as melhores notas de liderança e gestão de pessoas e projetos entre todas as pessoas do meu nível dentro da organização”, complementa.

Um antigo colega de trabalho da executiva – que, entre a época em que foi seu subordinado e posteriormente seu par, conviveu profissionalmente com T. durante 11 anos – lembra-se bem da época em que trabalharam juntos. Mas se engana quem pensa que a lembrança esteja ancorada à turbulência. Na verdade, S.S. – que também preferiu que a reportagem não revelasse seu nome – tem a fase clara na memória por ter sido justamente uma época “muito boa” de sua vida profissional, segundo afirma. “Fiquei subordinado a ela durante uns três anos, e o que me ficou é que ela é muito carinhosa e honesta”, comenta. “Ela é, sim, emocional e passional. Mas, por outro lado, é uma pessoa que tem uma grande capacidade de recuperação”. Atualmente professor de propaganda e marketing, S. revela ainda que por ser muito competitivo – “completamente louco, muita confusão, muita correria, um estresse violentíssimo”, define – o setor de telefonia celular tende a exercer muita pressão nos executivos que assumem cargos de responsabilidade. “Muita gente que eu conheço não segurou a onda, gente que não tem nenhum diagnóstico de transtorno ou distúrbio”, conta. “Mas a T. não. Ela segurou e segura essa onda até hoje, tem uma equipe gigantesca, metas absurdas para cumprir todo mês, e continua nesse setor.”

Não se trata de afirmar, porém, que o transtorno afetivo bipolar não possa comprometer a vida social e profissional do indivíduo. Dependendo da intensidade e gravidade das fases pode haver prejuízos. Muito deprimido, o profissional não consegue ir para o trabalho – há casos, na verdade, em que, sem tratamento, ele não tem energia sequer para sair da cama pela manhã. Além da falta de concentração – mais que uma consequência, um sintoma da fase depressiva. Enquanto que no polo oposto, eufórico, o indivíduo sente uma energia sem limites para começar diversas atividades ao mesmo tempo. Porém, não será capaz de concluí-las, vítima justamente do grau de aceleração da fase. A questão, por outro lado, é que – e aí, sim, o transtorno se difere de outras doenças, físicas ou emocionais – ele tende a ser “benigno”, como coloca o psiquiatra da USP. “O quadro tem uma boa evolução caso o paciente faça o tratamento de maneira correta: vá às consultas, siga as orientações do médico, tome os medicamentos”, explica. O especialista esclarece ainda que, embora não seja possível dizer que as chances da recaídas sejam nulas, a probabilidade é pequena quando o tratamento é feito corretamente. “A maioria dos pacientes consegue ter uma vida normal por um período prolongado, e há pessoas que nunca mais têm nada o resto da vida.”

Cartas na mesa

Por ser onde a pessoa passa boa parte do seu dia, o ambiente profissional pode agir, na verdade, a favor do bipolar. Cientes do problema, e preocupados com a qualidade dos relacionamentos no trabalho, colegas e liderança podem ajudar a detectar os chamados sinais de alerta que precedem as fases. “É a mesma coisa que a gente tenta fazer com o paciente e sua família: ensinar a perceber precocemente [a proximidade dos períodos de depressão e/ou euforia]”, ressalta Gallucci. “O paciente não entra em fase do dia para a noite. Ela vai se instalando ao longo de semanas”.

Nesse aspecto, T.C. foi cuidadosa consigo própria e com quem convive com ela ao optar pela transparência com pares, subordinados e líderes – revelando sua condição sempre que julgava que a informação poderia contribuir para a melhoria do convívio profissional. “Isso não representa nenhum tipo de limitação na minha vida profissional”, afirma a executiva.

 

*Essa notícia foi publicada no site Canal RH, em 10/1/2013

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